domingo, 13 de outubro de 2013

A música

Levei muito tempo até compreender o que aquela música significava. Ela ecoava em minha mente o tempo todo, tocava meu coração e me fazia derramar lágrimas diferentes das outras. Pensei que fosse dor. Quem sabe fosse. Pensei até que o significado mais profundo fosse só aquilo. Eu sabia o que era. Eu não admitia. Eu falava sobre aquela música, sobre o que era, sobre quem falava. Não era sobre mim. Pensei que fosse um nós diferente. Pensei que pudesse dar um significado diferente. Não pude. Pensei que as lágrimas fossem só para alagar aquele buraco vazio. As lágrimas foram a água que regou o que cresceria. Levou muito tempo pra crescer. Culpa minha. Ignorância. Teimosia. Chorei muito. Gritei. A mesma música. A melodia. Outros choros. Um coro. Todos juntos. Lembrar-me do significado vazio. O verdadeiro significado. Eu não admitia, eu nunca admitiria. Muita coisa me machucou. Tempo. Tempo. Tempo. Passado. O passado agora dói. Não quero mais ouvir a música. Passa a música. Vem a música. Passa a música. Passa quem lembra. Quem ela me lembra. Não lembra ninguém. Não lembra mais. É seu. Era nossa. Era nossa. A era. Ah, era. 
Não lembra mais ninguém. Lembra disso? Eu me lembro. 
Outro dia eu a ouvi. Outro dia ouvi a mesma música. A nossa música. Não é mais nossa. É minha. Eu não sou mais minha. Sempre teve dono. Sempre houve inspiração. Não era você nem eu. Era mais. Era melhor. Maior. Eu sei. Hoje, sei. É agora. Eu vejo, eu sinto. Nada mais é meu. Nem da música. Mas a música ecoa. Pode ser de todos; até nossa. Mas é dele. Bem melhor, não é? Quando a gente vê de verdade a verdade da verdade. E que verdade. Pois é.