sábado, 29 de novembro de 2014

Tecido

Claude era um desses miseráveis que sempre volta. Voltava ele ao que disse ou nunca disse. Corria por círculos e círculos em círculos em sua memória. Inesgotavelmente, ignobilmente, Claude corria. Um homem sem muito, que jamais fora muito e desejava não ser nada. Um homem que chegou a crer que dentro de si, em sua mais profunda ignorância, dentro da nojeira nunca iluminada, poderia haver alguma chama. Se um dia a flama realmente existiu, estaria completamente apagada agora.
Não, não agora. Agora, neste exato momento? Não. Há sempre muitas faces tristes e vazias nas ruas sujas, entupidas de gente muito cansada, gente de rosto que já não sustenta sorriso. Ali, porém, naquele instante, não havia nada, absolutamente nenhum rosto, sentimento alheio, olhar e mãos. Nem mesmo as suas, frias como o sentimento de morte que move a massa amorfa, existiam. Agora, havia apenas o olfato, o tato e seu coração-pedregulho que voltara a bater.
Os tecidos estendidos não podiam negar o que as luzes contaram aos seus olhos, opacos. Coisa alguma poderia negar o perfume que sentira. Dentre a rua e o que lhe despertara o sentido: tecido. Encobria, ali, o que pudesse ser verdade. Em vez de voltar apenas ao que disse, Claude era capaz de voltar ao que viu e sentiu. Ao que chegou aos dezessete, mas se foi aos vinte e um. Aquele perfume era, então, a única viva lembrança do que fora um verão de quatro anos inteiros; anos que preencheram seu coração, verão que o aqueceu até o fim. Tocou o tecido. A matéria, por fim, lembrou a Claude que na realidade não existe volta, não há círculo e que até mesmo do outono já passara.

Não havia nada, absolutamente nada. Engoliu a seco, sabendo que a garganta jamais seria desamarrada. Naquele instante, ele sabia por que alguns se atiravam de janelas.