Claude era um desses
miseráveis que sempre volta. Voltava ele ao que disse ou nunca
disse. Corria por círculos e círculos em círculos em sua memória.
Inesgotavelmente, ignobilmente, Claude corria. Um homem sem muito,
que jamais fora muito e desejava não ser nada. Um homem que chegou a
crer que dentro de si, em sua mais profunda ignorância, dentro da
nojeira nunca iluminada, poderia haver alguma chama. Se um dia a
flama realmente existiu, estaria completamente apagada agora.
Não, não agora.
Agora, neste exato momento? Não. Há sempre muitas faces tristes e
vazias nas ruas sujas, entupidas de gente muito cansada, gente de
rosto que já não sustenta sorriso. Ali, porém, naquele instante,
não havia nada, absolutamente nenhum rosto, sentimento alheio, olhar
e mãos. Nem mesmo as suas, frias como o sentimento de morte que move
a massa amorfa, existiam. Agora, havia apenas o olfato, o tato e seu
coração-pedregulho que voltara a bater.
Os tecidos estendidos
não podiam negar o que as luzes contaram aos seus olhos, opacos.
Coisa alguma poderia negar o perfume que sentira. Dentre a rua e o
que lhe despertara o sentido: tecido. Encobria, ali, o que pudesse
ser verdade. Em vez de voltar apenas ao que disse, Claude era capaz
de voltar ao que viu e sentiu. Ao que chegou aos dezessete, mas se
foi aos vinte e um. Aquele perfume era, então, a única viva
lembrança do que fora um verão de quatro anos inteiros; anos que
preencheram seu coração, verão que o aqueceu até o fim. Tocou o
tecido. A matéria, por fim, lembrou a Claude que na realidade não
existe volta, não há círculo e que até mesmo do outono já
passara.
Não havia nada,
absolutamente nada. Engoliu a seco, sabendo que a garganta jamais
seria desamarrada. Naquele instante, ele sabia por que alguns se
atiravam de janelas.
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