segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Qualquer uma/Ninguém ajuda

Era apenas um sapato vermelho, salto quebrado, deixado no meio do caminho. Uma viela do subúrbio brasileiro ao meio da tarde, daquelas que a gente sabe que nada ilumina. Ao redor, bares. Pra cada bar, uma igreja.
Qualquer um!
Ninguém ajuda. Era apenas qualquer uma.
Garrafa quebrada e cheiro de dor que já não é fresca. O som desta abafado.
Quem vai saber? Quem vai querer? Pobre, solta, da pele que ninguém nota (ah, todo mundo nota!). Não importa.
Era apenas o sangue seco que demarcava o palco da tragédia que esfriava enquanto todos ao redor permanecem calados.

sábado, 29 de novembro de 2014

Tecido

Claude era um desses miseráveis que sempre volta. Voltava ele ao que disse ou nunca disse. Corria por círculos e círculos em círculos em sua memória. Inesgotavelmente, ignobilmente, Claude corria. Um homem sem muito, que jamais fora muito e desejava não ser nada. Um homem que chegou a crer que dentro de si, em sua mais profunda ignorância, dentro da nojeira nunca iluminada, poderia haver alguma chama. Se um dia a flama realmente existiu, estaria completamente apagada agora.
Não, não agora. Agora, neste exato momento? Não. Há sempre muitas faces tristes e vazias nas ruas sujas, entupidas de gente muito cansada, gente de rosto que já não sustenta sorriso. Ali, porém, naquele instante, não havia nada, absolutamente nenhum rosto, sentimento alheio, olhar e mãos. Nem mesmo as suas, frias como o sentimento de morte que move a massa amorfa, existiam. Agora, havia apenas o olfato, o tato e seu coração-pedregulho que voltara a bater.
Os tecidos estendidos não podiam negar o que as luzes contaram aos seus olhos, opacos. Coisa alguma poderia negar o perfume que sentira. Dentre a rua e o que lhe despertara o sentido: tecido. Encobria, ali, o que pudesse ser verdade. Em vez de voltar apenas ao que disse, Claude era capaz de voltar ao que viu e sentiu. Ao que chegou aos dezessete, mas se foi aos vinte e um. Aquele perfume era, então, a única viva lembrança do que fora um verão de quatro anos inteiros; anos que preencheram seu coração, verão que o aqueceu até o fim. Tocou o tecido. A matéria, por fim, lembrou a Claude que na realidade não existe volta, não há círculo e que até mesmo do outono já passara.

Não havia nada, absolutamente nada. Engoliu a seco, sabendo que a garganta jamais seria desamarrada. Naquele instante, ele sabia por que alguns se atiravam de janelas.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Sete horas

O farfalhar das folhas velhas sob nossos pés dava o tom daquela tarde. Era tarde de som longínquo; era tarde bronze, ouro e quente. Ouro quente e viva. E comprida. A tarde que de tanto se fazer nossa virou a gente e a gente tão somente agente era, ao agir uma na outra. Ou talvez eu tenha perdido o que de fora agira na gente. Ou fosse tudo o mesmo.
De tão igual também era esse o clima: de abraço e beijo largos, preguiçosos... Na verdade, qualquer que fosse o sol e o vento, aquele beijo se estendia macio, confortável, beijo de cama ao fim ou começo de dia. A cama em si era variada e irrelevante; tecido, pele, outono ocre infinito, primavera verde indeterminável.
Irrelevante era o mundo. É o restante que tanto faz. O que importa é esse amor forte raiz de árvore.

Traços dum oito deitado

Como mapa em linhas
suaves, curvilíneas,
bem formadas,
juntinhas,
como caminho
observo,
aprecio.

É todo corpo circular e,
por circular, cíclico.
Cíclico, repetido.
Assim, infinito.

Eu que sempre distraída
estudo agora entretida,
embora por encantada perdida,
não desvio o olhar.

sábado, 27 de setembro de 2014

Direcionada entrega do ser

Como se fosse seda
Matéria pura, limpa
De algodão macio feita
Sutil-suave menina.

Espalha liquidez
Banha nosso ser
Água que se fez
Encobre-me.

Já não é preciso equilíbrio
Caio, me perco, respiro
Tomas aqui meu último suspiro.

Teu.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Liquefeitas

Róscidas velas choram
- Mão nenhuma nos machuca!
A mente transfigura
Todo grosso sal em agonia
Estrondosamente
Já sentida

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Mais um mar de dor

De tanta lágrima que vi, lágrima justificada já não me dava pena. A lágrima de casa, na verdade, pesava meu coração, mesmo que fosse mágoa com peso de pena. Afundava os batimentos numa dor conhecida há bastante tempo. Era dor tão conhecida que não me era agonia. A lágrima que de mim escorria era quente, era de raiva, ao ver a casa vazia e o corredor cheio de nada. O coração pesado pedia um perdão inconsciente, contente por não saber da rebeldia da mente. Mente que mentia sem saber que matava (lá dentro) gente.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

É como você

Todo pedacinho de matéria tem cor. Até o transparente pega emprestado do seu vizinho mais próximo.
Cada tom e luz e sombra, as misturas e os pincéis e cavaletes desmanchados, bagunça e sol e lua no céu. Cada pedra, estrada, folha e - se você com força fechar os olhos - o vento e a brisa. O mar, peixes, aves, répteis velozes e mamíferos enormes. As paredes. Eu. A raiva, a luxúria, a inveja. O branco e o preto e o cinza também se não é então é falta. Sorrisos e olhos, coração e fígado e fios de cabelo e pontas dos dedos. A paz, a carência, a coragem, a insolência. A insônia. O amor. Tudo que é tudo e de todos é cor. Te forma, constrói; te deixa e corrói. A dor.
Todo pedacinho de matéria é cor.

domingo, 6 de abril de 2014

quando eu te sinto
me sinto mais eu
você me completa
eu te transbordo

sábado, 15 de março de 2014

Sobre a intolerância

Todos se divertem ao mar - inclusive você - boiado tranquilos ou brincando inocentemente. A calmaria te conforta, a brisa é agradável e o brilho da água te faz brilhar também.
Subitamente, algo puxa sua perna. A maré subiu e você vê alguns sendo afundados contra suas vontades. Você está desesperado, pensa em ajudá-los, até perceber que há outros usando os que precisam de ajuda como apoios. Eles continuam seus jogos, ecoam os risos e você não entende mais nada. Não é hora de fazer alguma coisa? Grite! Vá até lá!
Bate outra onda, você cai num buraco. A maré subiu. Apesar de voltar para a superfície, seus olhos e narinas ardem e a força que usa para se manter respirando e recuperar o fôlego só te deixa mais cansado. O reflexo dos raios de sol e o movimento da água te deixam perdido. Você não vê onde está, só sabe que cai. Sua perna é puxada por alguém que, mais a fundo e sem esperanças, tenta um último suspiro. Sua cabeça é empurrada por alguém que só quer salvar a própria pele. Há, porém, os que ainda se divertem. Estes, conhecendo sua força conjunta, estavam já entediados com a calmaria. Eles precisavam que a maré subisse, precisavam ter não alguém em quem apoiar, mas quem afogar. Sobem em suas costas. Derrubam. Puxam de volta quem tenta sair. Fazem questão de molhar até mesmo quem já se encontra em terra firme.
Talvez não seja maldade. Talvez seja só o ócio. Eu, contudo, não me arrisco nesse mar.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Eu

Como o cão que, abandonado e solitário, procura afeto no braço dum mendigo seja dia ou seja noite em sol noturno ou tempestade, sem data especial ou aviso que alerte o seu despejo (desprezo) próximo, cá estou.
Cá estou jogada de lado. Do lado de quem não sou e ao lado de quem não quis que eu fosse; lado de dentro.
Comigo há muitos de mim. Todos eu sou (sou eu).
Há a mosca que paira sobre lixo. Não há escolha. Sou cada um.

vida