segunda-feira, 29 de dezembro de 2014
Qualquer uma/Ninguém ajuda
Qualquer um!
Ninguém ajuda. Era apenas qualquer uma.
Garrafa quebrada e cheiro de dor que já não é fresca. O som desta abafado.
Quem vai saber? Quem vai querer? Pobre, solta, da pele que ninguém nota (ah, todo mundo nota!). Não importa.
Era apenas o sangue seco que demarcava o palco da tragédia que esfriava enquanto todos ao redor permanecem calados.
sábado, 29 de novembro de 2014
Tecido
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
Sete horas
De tão igual também era esse o clima: de abraço e beijo largos, preguiçosos... Na verdade, qualquer que fosse o sol e o vento, aquele beijo se estendia macio, confortável, beijo de cama ao fim ou começo de dia. A cama em si era variada e irrelevante; tecido, pele, outono ocre infinito, primavera verde indeterminável.
Irrelevante era o mundo. É o restante que tanto faz. O que importa é esse amor forte raiz de árvore.
Traços dum oito deitado
suaves, curvilíneas,
bem formadas,
juntinhas,
como caminho
observo,
aprecio.
É todo corpo circular e,
por circular, cíclico.
Cíclico, repetido.
Assim, infinito.
Eu que sempre distraída
estudo agora entretida,
embora por encantada perdida,
não desvio o olhar.
sábado, 27 de setembro de 2014
Direcionada entrega do ser
Matéria pura, limpa
De algodão macio feita
Sutil-suave menina.
Espalha liquidez
Banha nosso ser
Água que se fez
Encobre-me.
Já não é preciso equilíbrio
Caio, me perco, respiro
Tomas aqui meu último suspiro.
Teu.
sexta-feira, 1 de agosto de 2014
sexta-feira, 25 de abril de 2014
Liquefeitas
sexta-feira, 18 de abril de 2014
Mais um mar de dor
De tanta lágrima que vi, lágrima justificada já não me dava pena. A lágrima de casa, na verdade, pesava meu coração, mesmo que fosse mágoa com peso de pena. Afundava os batimentos numa dor conhecida há bastante tempo. Era dor tão conhecida que não me era agonia. A lágrima que de mim escorria era quente, era de raiva, ao ver a casa vazia e o corredor cheio de nada. O coração pesado pedia um perdão inconsciente, contente por não saber da rebeldia da mente. Mente que mentia sem saber que matava (lá dentro) gente.
quarta-feira, 9 de abril de 2014
É como você
Todo pedacinho de matéria tem cor. Até o transparente pega emprestado do seu vizinho mais próximo.
Cada tom e luz e sombra, as misturas e os pincéis e cavaletes desmanchados, bagunça e sol e lua no céu. Cada pedra, estrada, folha e - se você com força fechar os olhos - o vento e a brisa. O mar, peixes, aves, répteis velozes e mamíferos enormes. As paredes. Eu. A raiva, a luxúria, a inveja. O branco e o preto e o cinza também se não é então é falta. Sorrisos e olhos, coração e fígado e fios de cabelo e pontas dos dedos. A paz, a carência, a coragem, a insolência. A insônia. O amor. Tudo que é tudo e de todos é cor. Te forma, constrói; te deixa e corrói. A dor.
Todo pedacinho de matéria é cor.
sábado, 15 de março de 2014
Sobre a intolerância
Subitamente, algo puxa sua perna. A maré subiu e você vê alguns sendo afundados contra suas vontades. Você está desesperado, pensa em ajudá-los, até perceber que há outros usando os que precisam de ajuda como apoios. Eles continuam seus jogos, ecoam os risos e você não entende mais nada. Não é hora de fazer alguma coisa? Grite! Vá até lá!
Bate outra onda, você cai num buraco. A maré subiu. Apesar de voltar para a superfície, seus olhos e narinas ardem e a força que usa para se manter respirando e recuperar o fôlego só te deixa mais cansado. O reflexo dos raios de sol e o movimento da água te deixam perdido. Você não vê onde está, só sabe que cai. Sua perna é puxada por alguém que, mais a fundo e sem esperanças, tenta um último suspiro. Sua cabeça é empurrada por alguém que só quer salvar a própria pele. Há, porém, os que ainda se divertem. Estes, conhecendo sua força conjunta, estavam já entediados com a calmaria. Eles precisavam que a maré subisse, precisavam ter não alguém em quem apoiar, mas quem afogar. Sobem em suas costas. Derrubam. Puxam de volta quem tenta sair. Fazem questão de molhar até mesmo quem já se encontra em terra firme.
Talvez não seja maldade. Talvez seja só o ócio. Eu, contudo, não me arrisco nesse mar.
sexta-feira, 14 de março de 2014
Eu
Cá estou jogada de lado. Do lado de quem não sou e ao lado de quem não quis que eu fosse; lado de dentro.
Comigo há muitos de mim. Todos eu sou (sou eu).
Há a mosca que paira sobre lixo. Não há escolha. Sou cada um.




















